sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

"UM CONTO SOBRE A SABEDORIA" ***

O Viajante de frente para o mar percebeu que ainda não mudara tua forma de olhar...De pensar...
-De onde vens para onde vais?... Assim perguntou uma bela menina...
-Vou caminhar errante até os finais destes campos de Oliveiras, Pereiras e Souzas .Para ver se lá é mais tranqüilo que cá. Ela porém não sabia ao certo se sentia curiosidade! Ele por sua vez não sabia se queria caminhar só...
-Assim te digo menina, caminhar só não é virtude, é castigo desta vida, é o preço dos que se iludem...Que ainda buscam na vida, somente a paz e alguma pouca saúde...
A menina pensou, lembrou dessas palavras que lhe calaram a alma:"Faz bem pensar mais uma vez, embora concorde; é bom pensar mais uma vez, embora discorde."
Grande alma guarda este pequeno corpo, pensou calado o viajante inseguro. A esta hora já sentado, de frente para ela, consentindo com o pescoço a balançar, mais alguns minutos de prosa para com ela travar...
-Viajante da noite posso um poema lhe recitar? Não me leve a mal! Apenas um dialogo que se transformou em poema quero lhe contar...
-Diante de meu cansaço e de tanto a minha paz buscar não me nego a ouvir-te menina esperta..Que desperta em minha alma a vontade de poetizar...A vida e a morte...Os ventos do norte, os ares de sempre, as aguas que vieram me batizar.. Enfim digas para mim o poema que fizera para este velho agradar.
Então com os dedos cruzados se pôs a recitar:” O mar, a lua e seus cabelos brancos, são intocáveis como o pó e são unos com o mar, não podemos viver filosofando ,apenas estamos vivendo como a lua, distantes da terra em outro lugar!”
-Ainda preso a esta terra, a este corpo, ao claustro do tempo que em mim hoje ainda é febril...Canso as vezes de poeta ser, e errante viver...Filosofando ou cantando longe das portas dos bares, sem violão fazendo canção, sei que os cabelos que levo não escondem minha feição, já velha eu sei...Mas para onde eu quero ir ainda me levam os meus pés, que desde outrora sempre fieis a este viajante foram. A menina assustada com as tuas palavras ficou mais uma vez a pensar, só que desta vez ela pensou no vazio e na estrada, nas janelas e nas estradas secretas que seu coração não abrigava mais...
-Como pode um viajante que parece estar em harmonia com o mar sentir tanta solidão?
-Não viajo só, trago comigo o peso da idade, as muitas horas de caminhada, os livros já lidos e as histórias de tantas praias para a ti contar...Por hora me de o alivio que é te ouvir falar. Assim a menina sorriu, sentiu paz naquela hora. Estava realmente satisfeita com a vida naquele momento.
-Viajante diga-me, disse ela: Como não viver a sonhar? Como sonhar e não mais viver?
-Percebo a vida como um belo sonho criança, nunca deixei a esperança ser um veneno em mim, nunca deixei de rezar mesmo sem minha fé ainda manter, sonhar é como caminhar, é habito como rezar...Viver nós viveremos sempre, viverei para sempre em seu pensamento eu sei...Sorrindo se levantou, satisfeito em tua bengala se apoiou.
Ouviu a menina falar:
-Quero o parque conhecer, tuas histórias ouvir, para sempre lembrar. Podemos nos apoiar, conversar, brincar e podemos orar para que esta hora nunca venha a acabar...Apenas mude de lugar.
-Podemos assim dizer que pouco tempo tenho aqui, pois de minhas viagens me sobra pouco tempo, e acredito eu que tão bela moça não gostaria de perder tanto tempo ao lado de um velho enfermo assim como eu...Prometo a cada minuto de ti recordar, e sempre que por aqui passar a ti chamar...
-A saudade, a solidão e a carência não podem ser mais fortes do que minha vontade de ao seu lado caminhar...Porém algo me prende neste humilde lugar, crescimento e sossego, a felicidade e a vida, as pessoas e os animais, o sol e a lua... O sol e a lua sei que poderei encontrar do teu lado, pois elas representam a saudade... Te espero sim, quando voltardes estarei aqui, vamos andar.? A pequena sussurrou...
-Caminhemos sim, sem lamentar, sem nada dizer...Disse o velho.. Uma lágrima...Não de tristeza...Mas da impossibilidade...Caminhemos sim, mostre para mim o que de tão belo há neste lugar, quem sabe aqui um dia eu venha morar.
-Digo a você viajante que aqui não tem nada de muito especial apenas o meu olhar sobre todas as coisas, meu olhar de felicidade, de vida. Amo viver em paz, amo viver aqui. Vejo minha felicidade com minha própria vida.
-Já estive na guerra, já estive na estive em alto mar, vivi sete anos de porta em porta, já acordei sem dinheiro em mesa de bar, cassino tavernas, florestas, serrados do mar, mas nunca ninguém me fez parar para escutar, nem tão pouco belas mulheres me fizeram desistir de caminhar...Mas esta cidade pacata, sua anfitriã tão singela e beata, fizeram-me parar pra descansar. Diga-me como aprendeu a poematizar a vida? Leu em tão pouco tempo de vida quais segredos de filósofos para a mim ludibriar? A serpente em alto mar enfeitiça o marinheiro para sua carga roubar, o que queres deste velho criança que sabe cantar?
-Meu caro companheiro a tempos não conhecia pessoas assim como você, rico de vida e pouco sabes, cheio de pensamentos e sonhos, cheio de amor incontido a tempos. Senhor não imagina o quanto quero tua felicidade, quero ver-te bem, conheço-te a bem menos de 3 minutos, quando viestes até mim com belas palavras, musicas aos meus ouvidos pensei: “Como és belo de alma e como podes crescer como pessoa”...Apesar de muitas coisas já vividas, ainda nem começaste a viver nem de aprender a sonhar...Peço a ti não prometas, apenas cresça...
-Como não conhecerá pessoas de tão grande espirito? Indagou o velho viajante.
-Pergunto a ti se nunca passas tempo só com teus devaneios. És de uma inteligência fora do habitual, vim talvez pela obra do divino acaso, ele me trouxe, ele me levara, o acaso fez das dele, porém minha sorte esta atrasada em algumas décadas...Não muito tempo ainda terei para ver-te, preciso apressar meus passos. Porque sei que se mais tempo aqui ficar ira me enfeitiçar...
-Não entendeste viajante, conheço muitas pessoas de grande espirito , todas elas que convivo são, porém elas me ensinam a viver melhor, espero que eu uma pequena menina possa me tornar uma guerreira mulher...Tu tens sorte sim, ela foi lançada. Então não penses que és vítima por que vitima serás dela...
-Tentarei teus conselhos seguir bela pequena, e um pouco de tua simplicidade apanhar, pois meus caminhos percorridos estão sempre a me afrontar, sigo em frente e deixo a ti, e que a juventude em ti só venha a prosperar.
Sigo agora e te digo adeus, quem sabes um dia eu passes de novo para ouvir teus contos e olhar novamente nos olhos teus...
A menina petrificou enquanto o viajante se afastava, não havia ali esperança de um dia voltar a vê-lo, sabia ela o quanto o vento mandava e tuas botas de homem velho, mas ela ali guardou uma grande experiência de vida, um par de livros e 4 moedas que ele deixara cair de 4 cantos diferentes do mundo...Talvez para onde vais não mais precise fazer trocas...Apenas poemas enquanto come pipocas e anda a passear pelos campos verdejantes...